Combate a 'colarinhos brancos' baixou guarda nas
fronteiras brasileiras
Apreensões no Rio passam de 456 para 91 em cinco anos
Nos últimos cinco anos, as
apreensões de armas feitas pela Polícia Federal nas fronteiras brasileiras
tiveram queda de 59,3%, caindo de 15.395 apreensões em 2012 para 6.270 em 2016.
Os dados foram obtidos pelo R7 via Lei de Acesso à Informação e, de
acordo com especialistas, eles mostram que o avanço de operações de
investigação de crimes fiscais como a Lava Jato tiraram o foco da PF na atuação
contra o tráfico de armas.
Segundo a coordenadora de
projetos do Instituto Sou da Paz, Natália Pollachi, os números mostram que os
recursos do governo federal tiveram um redirecionamento dentro da PF para
atender as diversas investigações sobre corrupção.
— É um dado bem
preocupante porque ele parece estar relacionado com a falta de prioridade. A
área dedicada ao controle de armas e apreensão de armas dentro da Polícia
Federal já era carente de investimentos. É bem a metáfora do cobertor curto.
Você puxa de um lado e deixa o outro descoberto.
A análise também é feita
pelo presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal, Flávio
Werneck, que cita as investigações dos crimes de “colarinho branco” de
políticos como uma das principais causas da queda de apreensões de armas.
— De 2012 para cá, é
evidente que houve um grande investimento da Polícia Federal em busca de crimes
financeiros de colarinho branco. Houve um desvio da atenção do efetivo de
policiais, que já é baixo, para fazer esse tipo de investigação.
Conforme explica Werneck,
a PF tem entre 1.000 e 1.500 agentes disponíveis somente para fiscalizar
fronteiras secas. Já nos CEPOMs (Centros de Polícia Marítima), os policiais
somam cerca de 150, o que torna insuficiente a fiscalização tanto em rodovias,
rios e aeroportos como em toda a costa brasileira.
— Basta fazer o
comparativo, por exemplo, com os Estados Unidos. A gente vê que nosso efetivo,
em algumas situações, não chega nem a 10% da deles. Só o efetivo de fronteira
deles com o México e o Canadá é de 30 mil homens.
Em junho deste ano, a
Polícia Civil do Rio Janeiro fez a apreensão de 60 fuzis no terminal de cargas
do Aeroporto Internacional do Galeão. De acordo com as investigações, os
armamentos foram encontrados escondidos em contêineres em meio a uma carga de
aquecedores para piscinas e vinham de Miami, nos Estados Unidos.
Para a coordenadora do
Instituto Sou da Paz, embora esse caso no Rio de Janeiro tenha tido sucesso,
ela afirma que trabalhos conjuntos entre duas ou mais instituições
governamentais raramente são operações que acabam com resultados satisfatórios.
— Esse caso do aeroporto
teve até um envolvimento grande da Polícia Civil e era uma questão que envolvia
fortemente a Receita Federal porque essas importações passam por ela. Existem
casos muito pontuais bem sucedidos, mas que no geral falta sim cooperação.
Parece ser mesmo uma questão de falta de investimento e prioridades.
Segundo Pollachi, outro
fator que reforça essa questão é de que as apreensões da Polícia Rodoviária
Federal, ao contrário das feitas pela Polícia Federal, estão crescendo.
— Isso mostra que se tiver
uma alocação adequada de investimento, tem um grande potencial para aumentar
essas apreensões. O combate à corrupção é importante, mas o fato de que
há um grande contingenciamento de recursos fez com que esse crescimento de um
departamento implique na redução das atividades de outras áreas.
Em 2012, a Polícia Federal
fez 456 apreensões de armas no estado, enquanto nos últimos anos esse número só
despencou, passando para 227 em 2013, 177 em 2014 e 165 em 2015. O índice mais
baixo dos últimos cinco foi registrado no ano passado, quando houve apenas 91
apreensões.
Negócio das armas
Em mais um exemplo do
mercado de armas que agita as ruas das metrópoles brasileiras, na segunda-feira
(23), quando investigava uma quadrilha espelializada em assaltos, o Deic
(Departamento Estadual de Investigações Criminais) encontrou um enorme arsenal
na zona leste de São Paulo. Na ocasião, foram apreendidos quatro
metralhadoras, nove pistolas, cinco revólveres, um simulacro de fuzil e três
adaptadores Roni, que transformam pistolas em metralhadoras.
Armas apreendidas pelas
polícia da SP na segunda-feira
De acordo com as
informações divulgadas pelas autoridades envolvidas no caso, o arsenal
encontrado seria "emprestado" para diferentes tipos de operações
criminosas. Também conforme divulgado, o dono do armamento é José Luis
Cardoso de Almeida, conhecido como Biliu, de 35 anos. "Ele está
encarcerado no presídio federal de Catanduvas, em Santa Catarina, por
participar do maior ataque a uma empresa de transporte de valores no Paraguai",
diz a nota do Deic.
Polícia desbancou o que
seria um serviço de fornecimento de armas para realização dos crimes
As armas apreendidas
estavam com munição, ou seja, prontas para a ação.
O R7 entrou em
contato com a Polícia Federal, mas, até a publicação desta matéria, não obteve
retorno.




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