A cena foi surreal.
Tarde do dia 12 de
outubro. Chapecó. Uma das viúvas dos jogadores que morreram na tragédia com a
Chapecoense vai ao cinema. Leva seus dois filhos para
assistir ao filme infantil Pica Pau. Antes da exibição, há os tradicionais
trailers.
E a viúva e seus filhos
passam a assistir as imagens dos jogadores da Chapecoense que faleceram na
Colômbia. Há até a cena do avião destruído. Depois, cenas do velório. Revivem
na hora toda tristeza que enfrentaram.
Era o trailer do
documentário 'O Milagre de Chapecó'. Produzido e dirigido pelo diretor
norte-americano, radicado no Uruguai, Luis Ara Hermida.
"Nós não tínhamos a
menor ideia sobre esse documentário. A viúva nos contou que ela tomou um susto,
as crianças começaram a chorar. Foi mais um trauma desnecessário. Não tem o
menor cabimento. Não demos autorização para ninguém expor as vítimas desse
acidente. Esse documentário não poderia ser feito sem o nosso consentimento.
Nenhuma família foi procurada. Como pode? Isso não existe", diz, em entrevista
exclusiva, Fabienne Belle, presidente da Associação dos Familiares das Vítimas
do Voo da Chapecoense (AFAV-C) e viúva do fisiologista Cesinha.
Havia data para o
documentário entrar em cartaz. No dia 30 de novembro. Ele seria distribuído
pela Arcoplex Cinemas. Ela tem 86 salas, divididas por São Paulo, Santa
Catarina, Ceará, Brasília, Paraná e Rio Grande do Sul. No início, seriam cerca
de 20 salas.
Seria, porque a
Chapecoense entrou no foro de Chapecó, com o processo 03121556920178240018 de
rescisão de um acordo com a empresa Trailer LTDA.
De acordo com informações
levantadas pelo blog, havia uma parceria entre o clube e o cineasta sobre o
documentário. Tanto que as entrevistas foram feitas na dependências do clube.
Com quatro sobreviventes do voo, três jogadores e o jornalista Rafael Henzel e
com dirigentes atuais. No trailer está escrito, 'com o apoio da Chapecoense'.
Depois da pressão das
famílias das vítimas, a Chapecoense teria voltado atrás. E decidido romper o
contrato. A alegação seria a exibição do trailer sem a autorização do clube. E
o filme foi embargado logo no dia 13, 24 horas depois do Dia da Criança, quando
o trailer foi visto por uma viúva de um jogador morto na tragédia. E os
protestos de familiares dos mortos já chegavam à direção da Chapecoense.
O blog entrou em contato
com o clube. E a resposta oficial foi dada pelo departamento de assessoria de
imprensa.
"A Assessoria de
Imprensa da Associação Chapecoense de Futebol comunica que foi protocolada ação
judicial ainda na noite de sexta-feira (13) por descumprimento do objeto do
referido documentário." Só. Sem nenhum detalhe. Apenas confirmou a
história.
A Chapecoense tinha de ser
ouvida para a matéria. E foi.
"Eu quis fazer uma
homenagem às vítimas desse terrível acidente. E destacar o renascimento do
clube. Focando no milagre que foi sobreviver os três jogadores na queda do
avião. Eu não teria de pedir autorização para familiar algum. Já que uso
imagens dos jogadores vivos e que consegui com as redes de televisão do Brasil.
Elas são públicas. Tive o apoio da Chapecoense. Fiz as filmagens dentro do
clube. Está tudo claro, transparente.
"Eu procuro filmar
tocantes que passem mensagens edificantes. Quis mostrar o renascimento do
clube. Me foquei na Chapecoense, que virou um clube conhecido no mundo todo
pelo acidente. Posso até destinar uma parte do que o documentário arrecadar
para as associações das famílias das vítimas. Eu não pensei no dinheiro. Até
porque documentário não dá dinheiro. As pessoas querem assistir Anabelle (filme
de terror). Quis retratar o renascimento da Chapecoense", reafirma o
diretor Luis Ara Hermida.
Ele foi produtor e diretor
de quatro documentários. "Teros, sueño mundial", "Gonchi, la
película", "Jugadores con Patente", "12 Horas, 2
minutos".
As filmagens de "O
Milagre de Chapecó" começaram em março e foram concluídas no início do
mês, de acordo com Luis Ara.
"Só que não é uma
questão de dinheiro. É uma questão moral. Nossos maridos foram expostos sem o
nosso consentimento. A Chapecoense não tinha o direito de autorizar
documentário algum sobre a tragédia, sem consultar as famílias. Sabemos que um
acidente dessa magnitude será objeto de filmes, documentários. Mas eles só
acontecerão respeitando as famílias das vítimas. São as vidas de maridos, pais,
filhos, irmãos que estão sendo expostas. Não há o menor cabimento nós ficarmos
sabendo do documentário pronto graças a um trailer, que foi visto por uma viúva
e seus dois filhos, que foram assistir a um filme infantil. E tiveram de ver o
avião despedaçado, com 71 pessoas mortas", desabafa Fabienne.
E ela não só desabafou.
Fabianne entrou em contato
com os advogados da associação e houve ontem uma reunião importante com a
cúpula da Chapecoense. Não só o documentário foi embargado. Mas foi feito um
acordo que o clube só liberará filmagens ou seus dirigentes darão entrevistas
para documentários sobre o acidente depois que as famílias forem avisadas e
consentirem.
"Nós firmamos um
termo de ajuste de conduta. Não há como a Chapecoense agir de uma maneira e nós
de outra. O clube e as famílias das vítimas estão envolvidas no acidente. E nós
temos de caminhar juntos. Tudo o que a Chapecoense decidir fazer, vai nos
consultar. E nós também."
Em janeiro deste ano,
houve rumores que a Chapecoense estaria fechando um acordo com a Netflix para a
realização de um documentário. O clube divulgou uma nota negando. "De
forma alguma, esta agremiação aceitaria transformar a tragédia em entretenimento."
Mas avisava que havia sido procurada por diversas emissoras e produtoras.
Só que Luis Ara acabou
fazendo "O Milagre de Chapecó". Tanto que o trailer já estava sendo
exibido na própria cidade que viveu toda a tragédia. Houve revolta até com o
título do documentário. Por ter acontecido uma tragédia e ele ter focado na
palavra milagre.
"Nós lamentamos esse
episódio. Mas temos agora a certeza legal que ele não voltará a se repetir.
Tudo que envolver os nossos familiares, a Chapecoense terá de nos consultar
para decidirmos o que for melhor. Nós precisamos estar juntos. Temos a certeza
que o documentário não será exibido. As imagens dos nossos entes queridos não
podem ser usadas sem nossa autorização. Vimos o trailer e há cenas até que
jogadores que morreram filmaram. Isso não tem cabimento.
"Repito a questão do
documentário não é financeira. É moral. Nossos entes queridos que se foram
precisam ser respeitados. Assim como os parentes dessas vítimas da tragédia.
Firmamos a nossa posição. Somos parceiras da Chapecoense nessa tragédia. E
seremos tratadas como parceiras, com direito a nos posicionar em tudo que
envolva quem se foi naquele avião", ressalta Fabienne...



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