As greves no transporte reativaram o noticiário negativo sobre o
país-sede no exterior. Mas os clichês sobre os perigos de visitar o Brasil vão
se confirmar?
Para tentar atrair
mais turistas, a Embratur bancou uma excursão luxuosa dos
repórteres pelos melhores hotéis e restaurantes de algumas das capitais
envolvidas no evento. Na saída de um restaurante no Rio, o grupo foi assaltado
na rua

Vai viajar ao
Brasil para acompanhar de perto a Copa do Mundo? Então deixe todos os seus
pertences valiosos em casa, não saia do hotel quando escurecer, tome
vacinas contra doenças exóticas e prepare-se para gastar boa parte do dia
encurralado no trânsito, torcendo para não ser alvo de um bando de mascarados
truculentos no caminho – afinal, se você tentar usar o celular para chamar a
polícia, o aparelho provavelmente não vai encontrar um sinal de rede. Nos
últimos meses, foi assim que o país-sede do maior evento esportivo do planeta
foi descrito no exterior, através de extensas reportagens enumerando todos os
problemas que os visitantes poderão encontrar pela frente. A partir desta
semana, com a chegada de dezenas de milhares de estrangeiros, sejam eles torcedores
de outras seleções ou profissionais envolvidos no Mundial, todos esses clichês
negativos serão colocados à prova – e o país terá, enfim, uma chance de exibir
sua realidade a quem vem de fora, talvez não tão calamitosa quanto fazem
parecer as notícias mais alarmadas, mas certamente cheia de dificuldades (e,
sem nenhuma sombra de dúvida, não tão rósea quanto quis fazer parecer o
governo antes do início do torneio).
Na semana da abertura da Copa, a greve no metrô de São
Paulo, que receberá a partida inaugural, na quinta, e a ameaça de
paralisação do mesmo serviço no Rio de Janeiro, o palco da
decisão, reativaram o noticiário negativo em torno do país-sede. Desde a Copa
das Confederações, ocorrida simultaneamente à maior onda de protestos de rua já
vista no país, o foco dos jornais, revistas, TVs, rádios e sites estrangeiros
tinha se voltado quase que totalmente aos problemas dos anfitriões do
evento. Nas últimas semanas, a expectativa de uma Copa extraordinária dentro de
campo, com muitas seleções fortes e muitos craques de alto nível, havia começado
a concentrar as atenções. A poucos dias da estreia, contudo, os temores dos
estrangeiros que não conhecem o país se renovaram. Na segunda-feira, a manchete
do site do jornal mais famoso do planeta destacava justamente as
dificuldades enfrentadas pelo Brasil antes da abertura – o New York Times lembrava tanto das falhas na
organização e dos problemas estruturais das cidades-sede como da boa acolhida
aos visitantes em outros grandes eventos no passado. No mês passado, a revista alemã Der
Spiegel publicou uma reportagem de capa com o
título "Morte e jogos", enumerando problemas como os protestos
violentos, os atrasos nas obras e a reprovação popular à festa. E essas foram
só duas das publicações de prestígio que trataram das dificuldades do
país-sede.
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Até agora, já
chegaram ao país as seleções participantes e um contingente razoável de
turistas, dirigentes, jornalistas, funcionários dos patrocinadores do
evento e outros envolvidos na realização da Copa. Acredita-se que o número
de estrangeiros no país para o evento deverá disparar a partir desta terça,
quando começa o Congresso da Fifa, no Hotel Transamérica, em São Paulo. Por
enquanto, não houve problemas significativos: os integrantes das seleções
classificadas têm usado as redes sociais para mostrar momentos de descontração
no país da Copa e não surgiram críticas em público à estrutura encontrada por
aqui. Eventualmente, no entanto, as dificuldades aparecerão – e o governo, que
apostou alto no evento, projetando a Copa como uma grande propaganda pré-eleição,
torce para que as coisas não saiam dos trilhos. No caso da greve de São Paulo,
tão noticiada no exterior às vésperas da abertura, a situação é
inusitada. A paralisação no dia de Brasil x Croácia, ainda
indefinida, pode manchar a imagem da abertura e fazer com que o evento já
comece num tom negativo – e esse movimento é apoiado pela CUT, central sindical
com fortes laços com o PT e integrantes do governo, que se divide entre fazer
barulho num Estado que governado por um opositor, Geraldo Alckmin, e poupar o
governo federal desse desgaste. Se ficarem com a primeira opção, é bom que os
grevistas lembrem que, de acordo com as pesquisas de opinião, os principais
questionamentos sobre a Copa são direcionados ao Planalto.
Na semana passada, a
presidente Dilma Rousseff recebeu Joseph Blatter, chefão da Fifa, e
posou para fotos com a taça, diante de um enorme painel com o slogan
"Copa das Copas", adotado pelos marqueteiros do governo para tentar
promover os avanços proporcionados pela realização do evento. Dias depois,
porém, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo – que passou os últimos anos
rebatendo com veemência qualquer crítica ao país-sede –, mudou um pouco de tom.
Em entrevista coletiva concedida ao lado do próprio Blatter, ele evitou
prometer uma Copa irretocável e um Brasil imune a todos os problemas. Os
discursos ufanistas do ministro deram lugar a uma postura mais cautelosa (e,
diga-se, realista): "Nós sabemos das nossas dificuldades",
afirmou. "Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para propiciar
aos visitantes segurança e tranquilidade. Que eles levem daqui a
lembrança de um país que luta para corrigir suas deficiências." Talvez o
caso que ilustre melhor a situação do país diante dos visitantes da
Copa seja o de um grupo de jornalistas estrangeiros convidados pelo
governo para conhecer as cidades-sede. Para tentar atrair mais turistas,
a Embratur bancou uma excursão luxuosa dos repórteres pelos melhores
hotéis e restaurantes de algumas das capitais envolvidas no evento. Na saída de
um restaurante no Rio, o grupo foi assaltado na rua. O episódio, é claro, foi
registrado nas reportagens publicadas pelos correspondentes em seus países –
junto de relatos bastante precisos sobre os riscos e os atrativos brasileiros,
os incômodos e os prazeres experimentados na jornada. Assim como ocorreu no
Mundial como um todo, o governo gastou muito dinheiro e espera se beneficiar do
evento, mas os visitantes vão tirar suas próprias conclusões sobre o país da
Copa – provavelmente não tão ruins quanto previam as reportagens mais
alarmistas, mas também não tão idílicas quanto pretendia o Planalto

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